Hoje, estava no Centro de Saúde de Alvalade, que fica no Júlio de Matos, e entrou um casal, ele com 88 e ela com 85. O senhor entrou primeiro, a senhora vinha com o filho, que cuidadosamente a deixou junto da sala onde viria a ser consultada e saiu. O senhor tratou de marcar a consulta, e, uma vez terminada a tarefa, sentou-se longe do olhar da esposa, que teimava em ir para junto dele (mas sem sucesso, pois as pernas não a deixavam andar). E então começou o diálogo (ou monólogo, ele nem deixava responder), do qual retive as seguintes frases:
«- A velhice é muito bonita até um certo ponto. Só quando chegamos à dependência física perde toda a beleza.»
«- Gosto muito dela, mas ela está a dar cabo dela e vai dar cabo de mim.»
Eu ouvia o senhor e pensava que era espantosa a naturalidade com que ele aceitava a velhice, encarando-a como uma coisa simultaneamente bonita e destruidora. Pois a verdade é que o que a velhice tem de belo tem em dobro de destruidor. A franqueza do senhor fez-me pensar como é bonita a construção do amor e como essa construção pode surgir apenas da cumplicidade entre duas pessoas.
A velhice é a etapa da vida em que se percebe que é possível construir o amor, inclusive com pessoas de quem não gostamos, pois todo o resto é nada.
Sem comentários:
Enviar um comentário