Voa, mas passa a parede.
Sonha e acredita que voas.
Acorda e abre a janela.
Foge de tudo o que quiseres,
mas dorme, para que possas voar e tornar a sonhar.
Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
Elas são as mães: rompem do inferno, furam a treva, arrastando os seus mantos na poeira das estrelas.
Animais sonâmbulos, dormem nos rios, na raiz do pão.
Na vulva sombria é onde fazem o lume: ali têm casa.
Em segredo, escondem o latir lancinante dos seus cães.
Nos olhos, o relâmpago negro do frio.
Longamente bebem o silencio nas próprias mãos.
O olhar desafia as aves: o seu voo é mais fundo.
Sobre si se debruçam a escutar os passos do crepúsculo. Despem-se ao espelho para entrarem nas águas da sombra.
É quando dançam que todos os caminhos levam ao mar.
São elas que fabricam o mel, o aroma do luar, o branco da rosa.
Quando o galo canta Desprendem-se para serem orvalho.
Eugénio de Andrade
(Uma excelente descrição da Mulher)
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
«O barulho das vozes dos amigos sossega-me. Não o que eles dizem. Às vezes nem os ouço. Não é para nos ouvirmos que nos encontramos - apenas para estarmos juntos. Cada um de nós é uma trave mestra da casa que somos todos juntos.»