terça-feira, 21 de dezembro de 2010

6 billion others

6 billion others by Yann Arthus Bertrand

Aconselho...

O projecto que me fez parar várias vezes diante do ecrã.
Família, medo, sonhos de infância, amor, felicidade... Os pontos de vista de milhares de pessoas das mais diversas culturas.

Está na hora de voltar a casa, para ficar junto de quem não é preciso dizer nada porque they know who I am.

domingo, 19 de dezembro de 2010

«- Continuo a dizer: arranja um quarto pequeno e escreve.
- MAS EU PRECISO DE SEGURANÇA!
-  Ainda bem que alguns não pensam assim. Ainda bem que o Van Gogh não pensava assim.
- O IRMÃO DO VAN GOGH OFERECIA-LHE AS TINTAS! - respondeu o miúdo.»
Em Correios de Charles Bukowsky

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

a lucidez no manicómio

Hoje, estava no Centro de Saúde de Alvalade, que fica no Júlio de Matos, e entrou um casal, ele com 88 e ela com 85. O senhor entrou primeiro, a senhora vinha com o filho, que cuidadosamente a deixou junto da sala onde viria a ser consultada e saiu. O senhor tratou de marcar a consulta, e, uma vez terminada a tarefa, sentou-se longe do olhar da esposa, que teimava em ir para junto dele (mas sem sucesso, pois as pernas não a deixavam andar). E então começou o diálogo (ou monólogo, ele nem deixava responder), do qual retive as seguintes frases:
«- A velhice é muito bonita até um certo ponto. Só quando chegamos à dependência física perde toda a beleza.»
«- Gosto muito dela, mas ela está a dar cabo dela e vai dar cabo de mim.»

Eu ouvia o senhor e pensava que era espantosa a naturalidade com que ele aceitava a velhice, encarando-a como uma coisa simultaneamente bonita e destruidora. Pois a verdade é que o que a velhice tem de belo tem em dobro de destruidor. A franqueza do senhor fez-me pensar como é bonita a construção do amor e como essa construção pode surgir apenas da cumplicidade entre duas pessoas.

A velhice é a etapa da vida em que se percebe que é possível construir o amor, inclusive com pessoas de quem não gostamos, pois todo o resto é nada.

hoje lembrei-me...

... do «acomodador»

«Existe sempre um acontecimento nas nossas vidas que é responsável pelo facto de termos parado de progredir. Um trauma, uma derrota especialmente amarga, uma desilusão amorosa, até mesmo uma vitória que não entendemos bem, acaba por fazer com que nos acobardemos e não sigamos em frente. O feiticeiro, no processo de crescimento dos seus poderes ocultos, tem de se livrar primeiro deste “ponto acomodador”, e para isso tem de rever a sua vida e descobrir onde está.»
Em Zahir de Paulo Coelho

E como descobrimos onde está o ponto acomodador?

domingo, 12 de dezembro de 2010

a relíquia da noite

- Vamos sair?
- Pra onde? Hoje não nos mexemos...
- Não sei. Bora. Já disse à Frazoa. Vamos beber um copo.
- Ok.

Depois de um dia/noite de trabalho já nem sempre se sabe se apetece sair ou não, mas este «vamos sair?»  tinha um sentido que não havia amigo que não o reconhecesse. Uma simples pergunta como «vamos sair?» pode esconder variados significados, mas este era bem perceptível. Em vez de ouvir uma interrogativa com duas pequenas palavras, ouvi um texto afirmativo, infindável, que se resume a isto: «Vamos dar uma volta porque estou triste e ficar em casa não me fará bem.»

E para este tipo de perguntas apenas uma coisa se pode responder: Ok. Não é preciso perguntar onde (logo se verá onde a noite nos leva), quando (assim que sair encontramo-nos), como (venham-me buscar, hoje não sou eu quem quer falar) ou porquê (os amigos não precisam de saber tudo, precisam apenas de estar presentes... e estando presentes, de olhos abertos, saberão o motivo do porquê).

Come-se um pão com chouriço («- Poça, Sónia. Tens sempre fome e depois não comes nada.»), deambula-se, bebe-se um copo e voltamos para casa.

Nem sempre o relevante é dito em voz alta, principalmente quando estamos com pessoas que nos querem bem. O que importa é estarmos presentes, ter uma conversa trivial, dizer duas ou três asneiras, sonhar que podemos fazer isto e aquilo, chorar, ter uma conversa mais séria, rir e fazer rir para depois voltarmos a casa. Descansados, com uma agradável paz de espírito. E dormir.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Coconut Skins


porque...

...no conforto do tédio lembramo-nos de coisas quase esquecidas
e porque é bom ouvir boa música cantada por pessoas que vivem música.

Sintomas de conforto

«Talvez o tédio seja um dos castigos da masculinidade, sim. As mulheres resistiam ao velho tédio do século XIX como resistem às neuroses do século XXI. Ambos são sintomas de um conforto que ainda não as contagiou.»
Em Os Íntimos de Inês Pedrosa

Sintomas de conforto :)
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.


Fernando Pessoa

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Ouvir uma música é como ler um livro: conta-se uma história. Cada história tem a sua quota-parte de verdade e de ficção, apelando ao nosso imaginário. Pode ser contada de várias formas mas para cada pessoa terá um significado diferente, singular. Porém, há um ponto em que a música prevalece: quando é possível contar uma história sem ser dita uma única palavra.

a música é mais do que uma sucessão de sons e silêncios organizada ao longo do tempo

Um indígena africano toca uma melodia na sua flauta de bambu. O músico europeu terá muito trabalho para imitar fielmente a melodia exótica, mas quando ele consegue enfim determinar as alturas dos sons, ele está certo de ter reproduzido fielmente a peça de música africana. Mas o indígena não está de acordo pois o europeu não prestou atenção suficiente ao timbre dos sons. Então o indígena toca a mesma ária noutra flauta. O europeu pensa que se trata de uma outra melodia, porque as alturas dos sons mudaram completamente em razão da construção do outro instrumento, mas o indígena jura que é a mesma ária. A diferença provém de que o mais importante para o indígena é o timbre, enquanto para o europeu é a altura do som. O importante na música não é o dado natural, não são os sons tais como são realizados, mas como são intencionados. O indígena e o europeu ouvem o mesmo som, mas ele tem um valor totalmente diferente para cada um, porque as concepções derivam de dois sistemas musicais inteiramente diferentes; o som na música funciona como elemento de um sistema. As realizações podem ser múltiplas, o acústico pode determiná-las exactamente, mas o essencial na música é que a peça possa ser reconhecida como idêntica.

Nattiez