terça-feira, 26 de outubro de 2010

Um dos maiores poetas brasileiros

Contigo, comigo
Como contigo
Eu chego a mim!

Como me trazes
A esfera imensa
Do mundo meu
E toda a encerras
Dentro de mim!

Como contigo
Eu chego a mim!

Ah como pões
Dentro de mim
A flor, a estrela,
O vento, o sol,
A água, o sonho!...

Como contigo
Eu chego a mim!

Manuel Bandeira
Dois anúncios

I - Rondó de efeito


Olhei para ela com toda a força.
Disse que ela era boa.
Que ela era gostosa,
Que ela era bonita pra burro:
Não fez efeito.

Virei pirata:
Dei em cima dela de todas as maneiras,
Utilizei o bonde, o automóvel, o passeio a pé,
Falei de macumba, ofereci pó...
À toa: não fez efeito.

Então banquei o sentimental:
Fiquei com olheiras,
Ajoelhei,
Chorei,
Me rasguei todo,
Fiz versinhos,
Cantei as modinhas mais tristes do repertório do Nôzinho.

Escrevi cartinhas e pra acertar a mão, li Elvira a Morta Virgem,
romance primoroso e por tal forma comovente que ninguém pode lê-lo
sem derramar copiosas lágrimas...

Perdi meu tempo: não fez efeito.
Meu Deus que mulher durinha!
Foi um buraco na minha vida.
Mas eu mato ela na cabeça:
Vou lhe mandar uma caixinha de Minorativas,
Pastilhas purgativas:
É impossível que não faça efeito!

II - Colóquio sentimental

- Não faça assim bichinho. O Segredo da Beleza diz: "Certo, um lindo seio
apontando orgulhosamente o céu, é coisa rara. Mas a culpa cabe muitas vezes
às próprias mulheres. Não cuidam deles. Deixam-nos magoar por dedos estouvados,
esses belos frutos tão frágeis".
- Não tenha receio, meu coração. Farei massagens, como manda o livro. Com muita
leveza, em sentido circular...começando pela implantação e acabando nas pontas...
- Com creme de pétala de rosas?
- Com creme de pétala de rosas...
- E ficarão firmes?
- Ora se!
- Como o Pão de Açúcar?...
- Como a Sul-América!

Manuel Bandeira

Secret Meeting

And so and now I'm sorry I missed you
I had a secret meeting in the basement of my brain

by The National

Gosto da definição de João Bonifácio: «Eles não fazem as meninas tirar as cuecas e os meninos tomar drogas. Eles fazem as mulheres divorciar-se e os homens irem à farmácia buscar medicamentos. Os National são assunto de gente grande. E isso sim, é perigoso.»


sábado, 16 de outubro de 2010

Hoje foi o dia do Nicola.

Mas os jardins do MNAA, os cafés «sem-nome» que só sei onde ficam (alguns sei que são onde Judas perdeu as botas), o Noobai e a Gulbenkian continuam ainda com as melhores pontuações na minha rota das leituras.

domingo, 10 de outubro de 2010

Quando voltamos

Quando voltamos àquela terra que nos viu crescer, começamos por sentir que estamos em casa. É o cheiro da terra molhada, o cheiro a verde. São os caminhos que afinal já conhecemos. Mesmo que o trilho se tenha desviado por causa da erva, o caminho a seguir é o mesmo que sempre foi (e sempre será). Não há nada para nos enganar. Podemos andar de luz apagada. Vêm à tona memórias já esquecidas. O cheiro, as paisagens, os lugares, as pessoas, os sabores, o toque. Tudo surge como reminiscências, trazendo uma paz de espírito sorridente. O dizer olá em menos de uma hora a um maior número de pessoas do que se consegue dizer em Lisboa num dia inteiro (incluindo o Sr. Silva, que por vezes me vende o café da «manhã»). O homem sentado no muro, os colegas no trabalho, os «amigos» no café. As voltas obrigatórias a dar para ver os que contribuíram para aquilo que sou hoje e que, de semana para semana, me aparecem com mais uma ruga e com aquele doce cheiro a velho ou à conhecida colónia (a muletas não deixam conduzir para comprar uma colónia diferente). Ver, acima de tudo, o sorriso dos que não têm o meu sangue, mas que me fazem derramar lágrimas de saudade/amor/ternura só de pensar que um dia tudo pode desaparecer. Ver quem me ensinou a jogar à bisca e ao burro, por serem os únicos jogos que sabia, quando eu o queria ensinar a ler e escrever. Perceber que essa bendita inocência fez com que esse mesmo homem com os copos (como sempre) teimasse há dias para que eu esperasse, e, ao fim de uns minutos de distracção da minha parte (ele estava com os copos novamente, talvez quisesse apenas falar),  me desse um guardanapo com o nome inteiro escrito. Chorámos os dois, ficando, por vergonha, só os olhos molhados (o café estava cheio). Saber que para muitos parece tão pouco e que para nós era uma vitória inatingível, pois quais são os objectivos de vida de um homem que tivera durante sessenta anos como melhor amigo o vinho. A mais bela prova de amor alguma vez recebida.
Quando voltamos àquela casa que nos viu crescer, sentimos uma inquietante tranquilidade que por vezes pensamos não existir. Dizemos palavras apenas através de olhares, não deixando nada por dizer. Sentimos uma silenciosa felicidade no encontro das pessoas para quem somos transparentes.
Quando voltamos a quem nos viu crescer, agradecemos tudo o que nos deram, retribuindo com um doce beijo ao acordar, um suave toque num momento de tumulto, um abraço, uma palavra carinhosa ou um simples e compreensivo olhar. Percebemos que voltar ensina-nos a dar valor às pequenas-grandes coisas da vida.

Ainda assim, com tudo o que tem de bom, será por isso que prefiro voltar em vez de ficar?

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Dá-me a tua mão

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio
e nesse silêncio profundo se esconde
minha intensa vontade de gritar.

Clarice Lispector

Silêncio

Há um grande silêncio que está sempre à escuta.

E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa,
qualquer coisa, seja o que for,
desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje
até a tua dúvida metafísica, Hamleto!

E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala
o silêncio escuta...
e cala.


Mario Quintana

sábado, 2 de outubro de 2010

Na boca

Sempre tristíssimas essas cantigas de carnaval
Paixão
Ciúme
Dor daquilo que não se pode dizer

Felizmente existe o álcool na vida
E nos três dias de carnaval éter de lança-perfume
Quem me dera ser como o rapaz desvairado!
O ano passado ele parava diante das mulheres bonitas
E gritava pedindo o esguicho de cloretilo:
- Na boca! Na boca!
Umas davam-lhe as costas com repugnância
Outras porém faziam-lhe a vontade.

Ainda existem mulheres bastante puras para fazer vontade aos viciados

Dorinha meu amor....
Se ela fosse bastante pura eu iria agora gritar-lhe como o outro:
- Na boca! Na boca!


Manuel Bandeira